domingo, maio 15, 2011

Santa Maria de Tupanaci (Mirandiba) e algumas considerações

Depois de mais de uma semana sem postagens (vida atribulada de coisas, querendo que o dia tivesse 30 horas), resolvi voltar a escrever mais das minhas andanças pelo município de Mirandiba, no Sertão Central, mês passado.

Outro ponto interessante que visitamos naquela viagem (além das inúmeras comunidades quilombolas presentes na região), foi o distrito de Tupanaci, ou Santa Maria, como chamam os mais antigos. Distando uns 32 km da sede municipal, sua formação remonta aos tempos da povoação do sertão, nas proximidades de rios (neste caso, especificamente o rio Pajeú), por intermédio de famílias que descendiam de brasões portugueses.

Ruínas da Fábrica de Caroá


Igreja de Nossa Senhora da Conceição




E foi em fins do século XIX que famílias foram se assentando naquele território, a partir de uma fazenda, cujo proprietário,devoto da Virgem da Conceição, realizava novenas em sua residência. A fé católica bem aos moldes ibéricos e populares, atraia cada vez mais um número considerável de fiéis aos cultos ali realizados. De tanta fama conquistada dessas celebrações, se fez urgente que a Virgem fosse abrigada num espaço de confluência maior, o que permitiria acomodar todos os ritos e participantes. Surgia daí a ideia de se edificar uma capela nas proximidades, num local chamado de Várzea da Toca, no então município de Floresta.

Sem tentar estabelecer leis, porque isso não existe em hipótese alguma na história, mas mergulhando na historiografia dos sertões brasileiros, percebe-se muito a constituição de arruados a partir de uma igreja (local de ritos e celebrações de cunho sagrado ou social), conjugada a uma praça ou pátio que servia de espaço de sociabilidade (um elemento, que na minha concepção, mais do que legitima a natureza de uma formação urbana); e foi assim que o povoado ia se desenhando, em torno da capela batizada de Santa Maria em referência a Nossa Senhora da Conceição (padroeira de muitos distritos pelo interior do Estado).



Interessante, ao pesquisar registros sobre o povoamento das áreas mais distantes do litoral brasileiro, é uma constante no enaltecimento das famílias de estirpe portuguesa que desbravaram os territórios "selvagens", e possibilitaram a formação de nucleos urbanos, carregando a bandeira da "civilidade". Negligencia-se desse processo, outros povos e etnias que se assentavam nestas regiões, populações que foram escamoteadas de seus espaços simbólicos,empurrados cada vez mais mata a dentro. E nos fatos de Santa Maria, encontram-se registrados a presença de tribos do tronco Tupi, de onde provavelmente originou-se o nome TUPANACI (uma representação de "Mãe de Deus" - referindo-se à virgem católica).



Às margens do Pajeú, a vila florescia, e movimentava um verdadeiro ciclo social e econômico em toda aquela região, estreitando laços inclusive com a cidade de Serra Talhada. Já pela década de 1930, feiras, comércio constante, escolas, uma banda marcial, celebrações (sagradas e profanas) coloriam o núcleo. A instalação de uma fábrica de fibra de Caroá (para quem não conhece, o Caroá é uma espécie de planta comum no agreste e sertão do Estado, que fornece fibras resistentes para a produção de cestos, bolsas, esteiras e até vestimentas), ajudou a dinamizar ainda mais aquela localidade social e economicamente. Que anos mais tarde, tornaria-se distrito da então Mirandiba.

Altar mor da Igreja


E tudo isso ia sendo narrado e lido nos textos oferecidos pelos moradores, durante a minha visita. Eu estava diante de uma vila que transmitia a sensação de ter praticamente estagnado no tempo. As duas ruas principais que a constituem, preservam ainda as mesmas configurações de suas casas (todas contando mais de décadas). A igreja ao centro, vigia a praça e o  busto em homenagem a um bispo, "filho da terra", que havia ganho destaque na diocese de Caruaru. Mas a fábrica, o bar, a farmácia, a "venda" e muitas das casas (hoje mais consideradas de "repouso" para quem já não mora mais por lá) encontram-se fechadas, e as representações sociais, diminuiram.






Testemunhos de uma das moradoras mais antigas, revelaram como Santa Maria era movimentada, viva, e de como a mudança de eixos econômicos daquela região para proximidades a Mirandiba, mudaram todo o seu quadro, e permitiram, inclusive, a permanência de todo aquele desenho urbano, que muitos hoje anseiam em preservar. Já que o cenário é desses propícios ao que poderíamos chamar de um filme de "época".

Bom, quanto às discussões sobre essa ótica de preservação e as críticas a uma história que mais musealiza, engessa, do que dinamiza as práticas e significações sociais, deixo para as publicações desse trabalho de pesquisa, que quando forem publicadas oficialmente, todos terão acesso. Por enquanto, eu deixo apenas essas impressões iniciais.

2 comentários:

ibycy.com disse...

parabens gostei muito suadade damiterrinha jose antonio filho da marlene dasilva

ibycy.com disse...

parabens gostei muito suadade damiterrinha jose antonio filho da marlene dasilva